a frequência do existir
a grandeza da vida está na tentativa - toni morrison
na minha infância, costumávamos passar noites e dias no sítio da família. a noite chegava e mal era percebida, momentos passavam em meio a risadas e música alta, a mudança de cores do céu mais vívida do que a vista na cidade. as árvores ao redor contrastavam de forma mágica com o azul do céu, minhas cores favoritas em um derreter e mesclar
inexplicávelmente divino.
meus pais se casaram nesse sítio. eu aprendi a subir em árvores lá. tomei banhos e banhos em chuveiros improvisados direto do poço d’agua. a melhor água que eu já senti em minha pele. meu cabelo sempre lindo e brilhoso.
toda manhã, você sabia que era dia não pelo sol ou cantar dos galos, mas porque às seis o trem da Vale passava levando minério. eu costumava correr meio ansiosa, meio sonolenta, me pendurava no cercado que protegia a propriedade e tentava enxergar o movimento. eu e mais ninguém.
não havia internet, então eu fazia download dos meus filmes favoritos e os assistia em repetição durante o final de semana. as idas até a cidade eram justificadas apenas por necessidades burocráticas como compras nos supermercados. as crianças animadas queriam sempre ir junto, como se a cidade não fosse o habitual, mas sim a novidade. eu viveria para sempre nessas memórias. sinto que todos os dias eu descobria algo novo sobre a vida nesses intervalos de existência.
não que eu tivesse muitas obrigações na infância, mas todas elas permaneciam suspensas na duração de sexta a noite até domingo.
tenho pensado muito sobre essa suspensão de sentido. sobre como tudo hoje em dia tem que se fundir e se misturar pra poder acontecer. os segundos de descanso e tranquilidade acontecem nos intervalos de almoço. não me vejo mais parando para observar o céu mudar de cor ou acordando mais cedo para ouvir o trem passar. sinto falta de descobrir coisas novas. de me sentir aventureira e pioneira nos meus sonhos.
sinto que há em mim uma fronteira. seu cruzamento impossível sem que eu abdique de algo.
tenho medo de fazer a escolha errada e me perder no meio do caminho.
minha mãe me tranquiliza e diz que acredita que eu seja a melhor que há. eu penso que existe um viés de julgamento muito grande porque ela não consegue evitar de me amar.
a vida é tanta coisa mais.
de tempos em tempos, fico com a sensação de que a vida tem funcionado em uma frequência que eu ainda não aprendi a ouvir. como uma rádio mal sintonizada, pego trechos aqui e ali do que vem acontecendo e tento construir a história por conta própria.
tenho medo de me perder.
o receio maior é de, em algum momento, esquecer que o ponto de tudo é olhar para o céu e perceber que ele é mais do que azul; é tirar uma foto mental e catalogar as coisas ao meu redor que me fazem querer continuar.
morrer é muito difícil. eu penso em tudo que deixaria para trás e não consigo evitar de querer ficar mais um dia, ouvir mais uma música, formar figuras nas nuvens no céu e, sem querer, perceber um avião passar. subir no cercado do sítio e ser pega de surpresa pelo barulho do trem às seis, que parecia tão alto quando eu era pequena, mas que agora nem se compara com o alarme do celular. a vida tem dessas coisas, eu acho. eu gostaria de descobrir.




lindo e sensível como sempre!!
seus textos são como a brisa da seis da manhã, que eu costumava sentir na infância. acordando as cinco sem motivo para ver o sol nascer e os passarinhos cantarem e minha mãe me pedindo pra voltar pra cama, porque era muito cedo para uma criança estar acordada e eu ficava na rede que tínhamos na varanda de minha cidade natal, apreciando o dia começar em silêncio, tudo isso para sete assistir meu desenho favorito na tv! eu amo sua delicadeza!